SOMOS TODOS
CANALHAS.
Sim,
a afirmativa é correta. Somos todos canalhas. Nos incomodamos com o trânsito
parado, com a longa fila no caixa do supermercado, do banco. Nos deixa
completamente irritados o fato desta ou daquela loja não estar aberta. Nos
deixa de cabelo em pé o fato de termos que passar por uma multidão de pessoas
gritando à nossa volta. Sim, somos uma sociedade de canalhas. O que não nos incomoda é a corrupção. Sim
pois ficamos completamente indignados com o “azulzinho” que nos importuna
quando em fila dupla esperando nosso filhinho amado que não pode caminhar muito
além do portão da escola (pobrezinho); nos achamos espertos com o troco a mais
que não devolvemos; somos tremendamente justos com a empregada a qual não
pagamos o salário mínimo, não assinamos carteira e tampouco lhe conferimos os
demais direitos, afinal, quem ela pensa que é, já dou emprego, do que mais ela
precisaria né?
Somos
canalhas quando a dor do outro pouco me importa, pois que sorte eu tenho de ter
nascido aqui, seguro, sem medo, com um colchão para dormir tranquilo depois de beber
meu leitinho morno a noite. Somos canalhas quando choramos pelo pobre cachorrinho
abandonado, de costas para quem dorme na rua, para quem esta à margem, afinal,
nós não estamos lá, somos “pessoas de bem” como dizia o jornalzinho da Ku KLux
Klan. Somos canalhas, hipócritas, verdadeiros filhos da puta, quando enxergamos
o mal no outro, mas não em nós. Quando a Tv nos diz o que pensar e ficamos
felizes com isso, pois nossa zona de conforto não será alterada.
“Baderneiros!
Vândalos! Destruindo o patrimônio privado!”
É a isso que
nos reduzimos: um patrimônio privado. Engolimos diariamente a falácia que todos
temos as mesmas chances, todos temos os mesmos direitos...Onde? Quando? Desde
os anos 50 sonhamos em ser Norteamericanos. Sonhamos, temos verdadeiros
orgasmos imaginando o modo de vida estadunidense, mas sinto lhes informar, eles
não nos querem lá, nem cá. Sonhamos em ter seus “herois” no quintal de casa. E já
os tivemos, e nem percebemos, ou fazemos de conta que não percebemos. Lembram
64? Lembram 2016? Pois é.
Somos todos
canalhas, pois repetidamente elegemos pessoas tão canalhas como nós. Nos
permitimos acreditar que o liberalismo econômico, que visa o lucro, e tão
somente o lucro, será bom para nós, que não somos empresários, pois fomos convencidos
que só nos cabe trabalhar, trabalhar e trabalhar. Enquanto isso, em outros
cantos do mundo, onde já reina, mesmo que de forma singela, a empatia, já se
sabe que o ser humano é mais importante que a máquina, ainda que máquina
humana. E essas pessoas que elegemos não estão nem ai para nós, pois só tem em
mente o próprio lucro, o próprio bem estar. E por que as elegemos? Porque também
pensamos assim. Primeiro “eu”, depois “eu”. E isso se reflete em casa também: “eu
mando”, “eu quero”, “eu posso”, “isso é meu”.
Sinto lhes
informar mas canalhas não mudam canalhas. E não adianta igreja, templo, centro
espírita, terreiro, seja lá o que for. Canalhas não mudam canalhas. “Deus te
abençoe, mas a mim primeiro.”
E esta mesma
sociedade canalha cria meios para se manter. Quer exemplo melhor que homens
pobres, com pouca instrução, com salário miserável e parcelado, atacando gente
pobre, também com salário miserável e parcelado, para defender justamente quem
lhe mantém miserável? É surreal, mas é verdade. E se cria toda uma atmosfera de
“poder” para convencer estes pobres e miseráveis atacantes de que estão fazendo
o certo. Todo um ritual de passagem, de transformação, lhes dão roupa especial,
estrelas, divisas, treinamento 9ainda que muito básico, pois também é perigoso
lhes manter muito bem treinados, vá que comecem a pensar por si) e armas...ai
sim, estão completamente convencidos de que são “Os escolhidos”, salário,
justiça, empatia, nada importa, pois são a lei e a ordem. Não comem bem, não
vivem, quase não vêem a família...se suicidam...mas são a lei e a ordem. Lei e
ordem para garantir e proteger quem?
E a canalhice
se repete em todos os setores. A sociedade dita moderna cria até termos novos
para manter a ralé (ou seja, nós) conformados. O trabalhador se tornou o colaborador,
o associado, sim pois quem colabora ou se associa não reclama, se sente parte
do todo. Mentira. Mentira. Ilusão. Esse mesmo colaborador, este mesmo
associado, é substituído como uma peça que não serve mais quando não interessa
mais ao sistema de canalhas mundiais ou locais.
“Tapinhas nas
costas” continuam sendo o gesto preferido dos canalhas, pois dá uma idéia de
proximidade, mas não de contato, não de proximidade. Quantos abraços tu já
recebeste, e de quem? Comecem a prestar
atenção. E dentre estes abraços quando te deram a sensação de afago e quantos
te deram a idéia de distanciamento, frieza? São os canalhas, que simulam até as
sensações, mas não conseguem disfarçar diante de um espectador atento.
Precisamos nos
“descanalhizar”, todos os dias, como o alcoólatra, um dia de cada vez. Aprender
a sentir a dor do outro. A ver que o melhor pra mim, se não for o melhor para
todos, não é o melhor. Deixar de lado o próprio umbigo, sair da nossa concha.

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