Coisas
estranhas acontecem quando estamos felizes. Coisas inexplicáveis mesmo. Por
exemplo, ontem pela manhã enquanto minhas mulher vinha quieta e um tanto sérias
após uma manhã cansativa de aulas, eu vinha dirigindo ao lado dela fazendo
vozinhas engraçadas (ao menos para mim), tipo “Fredie Mercury prateado” do
programa de tv. E não parou por ai, a noite quando ia para o plantão do curso
onde leciono, cruzei à frente de um motoqueiro (embora estivesse beeeeem
distante dele) ele buzinou como se eu tivesse avançado arriscando algum
acidente, qual foi minha reação:
- Abaixei
o vidro e xinguei o cidadão que não soube onde se meter.
- Me
encolhi no banco pois ele podia vir e me bater.
- Nada,
pois o que vem de baixo não me atinge.
- Olhei
para ele coloquei a língua pra fora e fiz uma careta.
Acertou quem
apostou na opção 4...sim, eu fiz isso. Algo inimaginável para uma pessoa que
passava os dias de terno há alguns anos. Impensável para quem ficava frente a
frente com juízes e promotores.
E o que motiva
essa felicidade inexplicável, onde até a falta de dinheiro, embora estressante,
tem o seu “que” de romantismo? O que leva a pessoa decide, aparentemente sem
qualquer razão, aprender acordes de violão com o filho de 09 anos, que também
está aprendendo, para o desespero dos tímpanos da esposa (a mesma que teve que
aturar as vozinhas engraçadas)? Crise dos 40? Tenho 41. Senilidade precoce? Não
tenho histórico familiar. Drogas? Nem pensar. Sem qualquer possibilidade. Nem
as permitidas.
Lhes respondo
o motivo de tamanha felicidade. Simples. Ter encontrado aos 41 anos a vocação,
fazer finalmente o que se gosta, após 12 anos de desilusão profissional.
Lecionar é conhecer pessoas, é partilhar sonhos, esperanças e desejos. Dar
aulas para uma turma de 100, 60, 30 ou 02 alunos é simplesmente FANTÁSTICO. E
não importa se são crianças, adolescentes, adultos ou pessoas com mais idade
que tu, os sonhos afloram nos rostos a cada descoberta, a cada conhecimento que
é partilhado. Sim partilhado pois nossa função não é mais de único detentor do conhecimento,
mas sim um partilhador, alguém que auxilia, que conduz, que norteia o caminho
do aluno para que ele, a partir do que já conhece, descobrir o mundo novo.
Não há
incentivo? Não há valorização? Não, não há. Mas mesmo assim as faculdades de
licenciatura ainda recebem alunos, muitos não tem a intensão de continuar no
curso e mesmo lecionar. Mas ao primeiro contato com as turmas, com os estágios,
mudam de ideia e seguem a carreira da docência...por que? Justamente pelo fato
de que sonhos, ideais, gente, convívio e carinho contagiam, eu até diria que
viciam. A relação aluno x professor tem tudo para ser mágica, mesmo com aqueles
que nos deixam loucos diariamente, pois o desafio de conquista-los nos motiva a
estudar, a buscar mais e mais formas de trazê-los para o nosso mundo.
Sempre fui um
viciado em aprender e ensinar, até hoje não sei explicar o que me desviou do
caminho das licenciaturas (até suspeito, mas isso é assunto para outra
crônica). Domingo passado, no aulão do Desafio, e ontem no plantão como o grupo
de professores, tive uma sensação tão boa e indescritível, que não tive
alternativa além de partilhar com todos aqueles que esta crônica alcançar.
Com a
proximidade do ENEM seria interessante se cada candidato fizesse uma reflexão
sobre o curso que irá escolher futuramente. Se pergunte se é isso mesmo que se
quer fazer, se não se está apenas correndo atrás de um dinheiro que não virá,
pois só se tem sucesso fazendo o que se gosta. Se pode manter a aparência de
felicidade e realização, se pode manter a emoção da formatura na cabeça, mas
não no espírito, não no coração. O dinheiro que se ganha infeliz nunca é
suficiente, já o que se ganha feliz, por pouco que seja, nos é suficiente e,
por vezes, até sobra. As dificuldades que se enfrente fazendo o que não se
gosta são um saco; as que surgem fazendo aquilo para o que se tem a real
vocação são desafios impulsionadores; o cansaço que se sente ao final do dia de
um trabalho qualquer é destruidor, estressante, nos adoece; já o cansaço deste
trabalho que falo, é recompensador, é uma forma de aliviar toda a tensão de
quaisquer outros problemas que venhamos a ter.
E qual é a
dica do tio Jefferson para todas essas crianças (de todas as idades) que farão
o ENEM pensando em suas futuras carreiras? Não abandonem seu sonhos, não corram
pura e simplesmente atrás do dinheiro, mas sim da felicidade profissional, pois
o resto vem junto. E tenham certeza que, de certa forma, estas felicidades, a
felicidade está ai dentro de ti, esperando se encontrar com essa outra
felicidade que está fora ainda, vão se juntar e tua vida será uma fonte de
realizações e de sucessos diários. Ou seja, nunca é tarde.